domingo, dezembro 12, 2010


Era uma trepadeira dessas que dá flor. Mas só tinha flores murchas e botões, nenhuma flor aberta de fato, fiquei pensando nisso. Que as coisas mais bonitas são mesmo essas que a gente nunca vê. E depois me cansei dessa minha mania de metáforas, de achar que tudo tem significado e saí andando.

Me lembrei disso quando Jerome me contou que guardava todas as fotos de sua esposa num cofre.

Ele diz isso depois de muito tempo de conversa. Jerome me elogia muito, pergunta como eu não tenho namorado, pergunta se não existem homens fazendo fila em minha porta. Não sou dura com ele, aceito o elogio, mesmo que batido. Pergunto de volta porque ele não tem uma namorada. Ele diz que é uma longa história. Jerome não sai com ninguém desde que ela morreu, não sente que as filhas estão prontas para ver o pai com outra mulher e que por isso ele recorre a esse tipo de site.

Fico triste por ele, não consigo deixar de pensar como é difícil administrar as expectativas de duas meninas sem mãe. Ele diz que eu pareço com ela e pede desculpa por olhar pra mim de forma tão invasiva.

Jerome é professor de matemática, substituto de educação física e dá aula de inglês para estrangeiros também. Jerome me acha hilária. Penso nesse senso de humor que os pais têm. Que eles precisam aprender a rir de qualquer coisa, do dinossauro que tropeçou na árvore e do gato que caiu no balde d’água, um dia as crianças deixam de achar aquilo tudo engraçado e depois não tem muito como os pais desaprenderem. Dou risada de tudo que não costuma ter graça pra mim, porque estou disposta.

Jerome me conta que freqüenta um bar de poesia em seu bairro, que ele gosta muito de escrever e pergunta se escrevo também. Eu digo que não, que costumava escrever poesia e que parei faz tempo. Não digo para ele que tenho completa aversão a esse tipo de troca. E talvez mais ainda ao meu tempo de poesia. Na época eu era fascinada por sinestesias mais do que por metáforas. Me lembrei disso outro dia ouvindo uma música da Marina Lima que diz “Se eu tivesse palavras eu faria um quadro”, que coisa mais idiota. Mas essa música também diz “num cofre não se guarda nada, num cofre perde-se a coisa a vista”.

A conexão cai. Eu nunca mais poderei ver Jerome. Fico inconformada. Eu não posso deixar esse homem. Preciso fazer companhia pra ele. Me atormenta a idéia de deixá-lo sozinho com toda a decepção que essas meninas sentem em não ter mãe. Não me iludo com qualquer altruísmo nos meus sentimentos, eu quero aquele amor todo. Eu quero que ele ache que meus olhos são iguais aos dela. Eu quero receber todo esse amor sem ter feito nada para merecê-lo. Primeiro recorro ao Google, procuro por professores de matemática em sua cidade. Não tenho informações suficientes para procurar. Não é fácil. Me dou conta, depois de quase uma hora, que os obituários são minha última esperança. Ela morreu faz 3 anos. Procuro em todos os obituários de San Diego, de 2007 e até o meio de 2008 (porque algumas pessoas consideram dois anos e meio, como três) a morte de uma mulher com por volta de 28 anos, que tenha deixado um marido e duas filhas para trás. Encontro muitas falecidas que enviuvaram Jeromes, a maior parte muito mais velha, algumas sobreviventes de guerras, outras talentosissimas e tantas muito queridas pela família. Finalmente encontro Claire Sabiston, morreu com 27 anos em outubro de 2007, faz três anos exatamente. O obituários diz apenas “You’ll be really missed by the three of us”. E diz também onde será o velório. encontro Jerome Sabiston em um site de professores particulares, ele cobra 30 dolares a hora e tem muitas referências boas.

Jerome fica muito feliz que o encontrei. Rimos juntos de quão absurdo foram os meus meios. Mas também não rimos tanto, não queremos pensar no quão pouco engraçado é.

Essa é a terceira vez que me despeço de Jerome no aeroporto. Fazemos pouco caso, quem vê pensa que trabalhamos juntos. No portão de embarque sempre pergunto “Do you have your passport?”, ele dá um pequeno tapinha no bolso e um beijo rápido em minha bochecha. Nos damos as costas sem olhar para trás. Na primeira vez que ele veio, trouxe Dorothy e Jude, levou elas pra praia. Me encontrava escondido. Nunca as vi. Achamos inapropriado. Passamos a maior parte do tempo falando sobre Claire. Ele me explica em detalhes, como ela dirigia com o cotovelo para fora da janela e se maquiava entre faróis, que ela mantinha uma pequena lanterna no porta-luvas e pelo menos duas mudas de roupa no porta-malas. Que ela dirigia feito uma louca, e que a certa altura do namoro deles, ele se acostumou com a idéia de que isso nunca mudaria. Mas que ela de fato dirigia de forma diferente quando as meninas estavam a bordo e que quando não estavam ele costumava dizer “can’t we Just pretend Jude is in the back seat?”.

Não tento imitar ela em nenhum aspecto, ouço tudo com muita atenção, quero saber mais, quero saber tudo. Jerome sempre tem mais o que contar. Ele me conta também sobre as meninas, como Dorothy gosta de pintar livros de colorir com o giz branco. O que não faz tanto sentido, mas parece ser de grande sensibilidade. Ela quer preservar o livro como está, mas também quer ter o prazer de preencher.

Quando ele fala das meninas é o mais próximo que chego de ocupar o lugar dela. Nunca comentamos esse deslize. Concordamos que é um direito que adquirimos depois de tanta disciplina.

Pode significar qualquer coisa. Passei outro dia pela mesma trepadeira. Não sabia onde ia chegar colocando ela aqui. Não é preciso pensar muito, eu sou o botão, Claire é uma flor murcha e flor aberta não se vê.